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“Eu não acredito que tecidos tenham gênero"

“Eu não acredito que tecidos tenham gênero.” — Jean Paul Gaultier

Inspirado no texto Moda Binária, de Marina Colerato

Você já prestou atenção em como as roupas são apresentadas em filmes de ficção científica? Pense, por exemplo, no figurino de Matrix ou Aeon Flux e você notará que as barreiras entre feminino e masculino ficam embaçadas. Para Hollywood, quando o assunto é a maneira como nos vestiremos no futuro, não há grandes distinções entre moda masculina e moda feminina, assim como acontecia até o período vitoriano no Ocidente, onde homens e mulheres vestiam praticamente as mesmas roupas

O binarismo de gênero na moda foi selado durante a Era Industrial, quando homens começaram a usar ternos e abandonaram as cores e as mulheres continuaram presas ao vestido. Para elas, usar calças era absolutamente escandaloso e a diferença nos trajes começou a representar a diferença dos sexos, inclusive na Ásia.

Foi com o movimento feminista e a luta pelo sufrágio feminino, no final do século XIX, quando essa distinção começou a ser questionada pelas mulheres. Amelia Bloomer, sufragista, editora e ativista, desafiou o binarismo de gênero na moda e a sociedade ao usar calças, até então consideradas propriedade exclusiva do homem. Desde então, em períodos espaçados, e normalmente relacionados à ascensão do movimento feminista, conseguimos observar a tentativa de romper com esses códigos sociais tão fortemente representados pelas roupas.

O desafio às normas de gênero hoje é uma continuação da luta por objetivos inalcançados dos anos 1960 e 1970. Movimentos de direitos sociais, o movimento gay, a comunidade LGBTQ e a contracultura sempre questionaram papéis de gênero e, consequentemente, isso tem a ver com como performamos gênero ou, basicamente, como nos vestimos para representar o gênero que nos foi “dado”.

Na história da moda, alguns estilistas foram subversivos em questionar essas normas. Jean Paul Gaultier, por exemplo, causou alvoroço ao colocar homens de saias nas passarelas pela primeira vez, em 1985. Ann Demeulemeester, Martin Margiela, Comme des Garçons e Helmut Lang levantaram a pauta da androginia durante os anos 1980 e 1990.

Atualmente, Hood By Air, Rick Owens, Saint Laurent e Gucci são algumas marcas que incorporam este debate. Essa última apresentou sua primeira coleção de menswear sob o comando de Alessandro Michele como diretor criativo, em março de 2015, com padrões, formas e adereços considerados femininos. O passo foi bem recebido, especialmente por se tratar de uma marca tradicional que, temporada após temporada, apresentava ternos, ternos e mais ternos.

Mesmo que existam milhas de distância entre a fantasia da passarela e a realidade das lojas, seja de luxo ou popular, varejistas tomam atitudes para aproximar-se desta tendência. Em iniciativa pioneira, a Selfridges criou em 2015 um departamento onde as roupas não eram separadas por gênero. Marcas de fast-fashion como C&A e Zara também entraram no debate e levantaram questões sobre até que ponto estratégias publicitárias podem ser consideradas sinceras e benéficas ao assunto. Para a comunidade LGBTQ, a absorção do tema pela indústria de maneira massificada pode ser problemática, mas cumpre o papel de colocar o assunto em perspectiva.

O ponto crucial é gerar debate e não devemos esperar que ele cesse. É uma reinvindicação social refletida na moda. A maneira como a indústria lida com tal demanda pode variar de acordo com cada público alvo, mas é fato que ela terá que aprender para continuar no jogo.



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