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Como o design de produtos pode acentuar a desigualdade de gênero

Cintos de segurança são menos seguros para mulheres. Remédios e seus efeitos colaterais, também. O motivo: esses produtos são testados em bonecos e cobaias que levam em conta o biotipo e o organismo masculino. Esses são apenas dois dos exemplos que levaram a designer Kat Ely a publicar no site HH Design o texto “O mundo é feito para homens”, destacando a maneira como o design de produtos frequentemente é afetado pelo viés de gênero.

Ely conduziu uma pesquisa informal entre 27 agências de design do mundo todo e constatou que apenas 24% dos funcionários dessas agências são mulheres. O número não tem valor estatístico, mas a quantidade menor de profissionais mulheres na área é um fato - e já foi objeto de estudo de outros pesquisadores da área.

“O impacto de ter um conjunto tão limitado de vozes nas salas em que decisões na área de design são feitas tem implicações que vão muito além [do que se pode imaginar]”, argumenta Ely. Para ela, a falta de diversidade nas agências se traduz em ambientes, produtos e serviços menos amigáveis e em alguns casos, mais perigosos - para mulheres.

Por serem diferentes, mulheres usam produtos, serviços e sentem efeitos de medicações de maneira diferente dos homens. Mas esses produtos são projetados por homens e testados, geralmente, usando o homem médio como base. Essas diferenças podem ser observadas até na maneira como as cidades são construídas e planejadas e nos serviços públicos. Exemplos de exclusão da mulher

AR-CONDICIONADO - A regulação automática da temperatura do termostato de equipamentos de ar-condicionado, por exemplo, é feita com base em um cálculo de temperatura corporal que leva em conta o corpo masculino. Por isso, em ambientes com ar condicionado, mulheres tendem a sentir desconforto em temperaturas nas quais homens se sentem confortáveis.

TECNOLOGIA E SAÚDE - Assistentes pessoais desenvolvidos para celulares, como a Siri e o Google Now, sabem exatamente o que fazer diante de frases como “Estou tendo um ataque cardíaco” ou, por exemplo, menções a suicídio. Eles foram programados, nesses casos, para ligar para linhas de emergência e de apoio psicológico. No caso de frases como “Sofri abuso sexual” e “Fui estuprada”, tanto a Siri quanto o Google Now respondem “Eu não sei o que é isso”. As diferenças de eficiência entre os assistentes no reconhecimento de crises para homens e mulheres foi alvo de um estudo publicado em maio de 2016 no Journal of The American Medical Asssociation.

MEDICINA - Nas ciências biomédicas e no desenvolvimento de remédios, mulheres estão presentes em número menor nos testes laboratoriais. Nos EUA, na década de 90, oito em cada dez remédios que foram retirados de circulação por ordens da Food and Drugs Administration, que regula esse tipo de venda no país, saíram do mercado porque causavam estatisticamente mais riscos a saúde de mulheres do que de homens. Em 2010, a médica Teresa Woodruff, então professora de obstetrícia e ginecologia na Universidade Northwestern, publicou um editorial na revista Nature em que defende que a medicina precisa ser feita com um olhar mais atento para o efeito das drogas no corpo feminino. “[...] o efeito cumulativo [dessa desigualdade] é pernicioso: a medicina aplicada a mulheres atualmente é menos baseada em evidências do que àquela aplicada a homens. [...] Em geral, [agências] reguladores de drogas deveriam garantir que médicos e o público estejam cientes da diferença de gênero em reações às drogas e suas dosagens.”

FAÇA-VOCÊ-MESMO - Ferramentas, em geral, não são feitas levando em conta o corpo feminino - anatomia das mãos, comprimento dos braços e força muscular. Mais recentemente, algumas fabricantes de ferramentas reconheceram a falha e têm lançado linhas desenvolvidas para a anatomia feminina.

SEGURANÇA NO TRÂNSITO - Os bonecos de teste usados pela indústria automobilística para definirem a eficiência de seus dispositivos de segurança - como cinto de segurança e air-bag - simulam o biotipo e o peso do homem médio. Em 2011, um estudo da Universidade de Virginia, nos EUA, identificou que mulheres usando cinto de segurança têm chances 47% mais altas de sofrer ferimentos graves em acidentes do que homens na mesma posição. Para ferimentos moderados, as chances são 71% maiores.

Fonte: Nexo



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